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Celular nas escolas: 4 pontos para entender como chegamos aqui

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Celular nas escolas: 4 pontos para entender como chegamos aqui

Já se pegou entrando no Instagram apenas para checar uma notificação, mas acabou fisgado por um vídeo seguido de outro e não conseguiu mais sair? Ou então ficou desconfortável ao perceber que seus pais e amigos interrompem conversas com frequência para dar uma olhadinha no celular? Já se sentiu solitário na escola, mesmo estando cercado por dezenas ou centenas de alunos da mesma idade que você?

Nada disso é mera impressão. Cientistas do mundo todo estudam há anos o impacto dos celulares – e em especial das redes sociais – na vida de crianças e adolescentes. Os achados mostram que as experiências, definitivamente, não são individuais. Pesquisas estimam que adolescentes passam de 6 a 8 horas por dia no aparelho. Mas o número, alerta o psicólogo e estudioso do tema Jonathan Haidt, provavelmente é subestimado.

Como todo mundo tem as mesmas 24 horas por dia, gastar tanto tempo assim nesta tela significa abrir mão de outras atividades – sono, brincadeiras, tempo com amigos de carne e osso e, é claro, o aprendizado. Uma revisão de 36 estudos indicou que existem relações diretas entre uso das redes sociais e piora no sono. Sem dormir, fica impossível raciocinar bem.

Agora imagine que este estudante, que passou 8 horas ou mais do dia anterior no celular, dormiu pouco e acordou cansado, chega na escola e precisa prestar atenção. Pareceu desafiador? Acrescente a isso mais um obstáculo: de acordo com uma pesquisa de 2023 feita com 5 mil pessoas entre 16 e 25 anos, um jovem recebe em média uma notificação a cada cinco minutos no celular. Se o celular vibra em cima da mesa, fica difícil se controlar e não dar nem uma espiadinha enquanto a professora de química tenta explicar o que é uma ligação covalente.

Os resultados de tudo isso apareceram na última edição do Pisa, o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes, aplicado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Um dos dados diz que estudantes que utilizaram o celular para lazer durante uma única hora por dia alcançaram 49 pontos a mais em Matemática do que aqueles que usaram o aparelho entre 5 e 7 horas. Outro achado relevante foi que 45% dos estudantes brasileiros dizem se distrair por causa de dispositivos digitais em todas ou quase todas aulas de matemática.

Na esteira destes números, a Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) publicou no ano seguinte o relatório “A tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, em que demonstrava preocupação com o uso de celulares no ambiente escolar. Não teve mais volta: os países do mundo que ainda não haviam se mobilizado para regular o uso dos aparelhos na escola, começaram a criar suas leis neste sentido. No início de 2025, foi a vez do Brasil.

Com sanção do presidente Lula, a Lei nº 15.100/2025 restringiu os celulares no ambiente escolar, proibindo que os estudantes façam uso deles seja durante as aulas ou intervalo. As exceções são em casos de saúde, acessibilidade e inclusão, além de fins pedagógicos.

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Abaixo, confira quatro pontos que ajudam a entender como chegamos até aqui – e, quem sabe, que abram caminho para enxergar a saída.

1. Caímos em uma armadilha
–Canva/Reprodução
Antes de colocar a culpa pela falta de concentração no estudante, dois adendos importantes. O primeiro é que o córtex pré-frontal, uma parte importante do cérebro que ajuda a controlar impulsos e tomar decisões, só se desenvolve completamente em torno dos 25 anos. Por isso, é comum que crianças e adolescentes sejam mais impulsivas. É uma questão biológica. Para completar, tem um grupo de empresas bastante ciente disso, e que usa essa informação para fazer negócio – as big techs.

No livro “A Máquina do Caos”, o jornalista Max Fisher desvenda como as redes sociais foram e ainda são intencionalmente programadas para viciar seus usuários por meio de determinados mecanismos, que envolvem tecnologia e muita psicologia. Ele relembra que Sean Parker, o primeiro presidente do Facebook, contou abertamente em uma conferência o raciocínio usado para construir aplicativos como esse. O objetivo, para começar, é “consumir o máximo possível do seu tempo e da sua atenção”. E o caminho, nas palavras de Parker, seria de vez em quando “provocar um pico de dopamina, quando alguém curte ou comenta sua foto ou postagem. E isso o leva a contribuir com mais conteúdo, que vai render mais curtidas e mais comentários”.

Portanto, para começar a discutir o uso de celulares dentro ou fora das escolas, é preciso reconhecer que caímos em uma armadilha. E que, para crianças e adolescentes, ela é ainda mais nociva e difícil de ser driblada.

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Já ouviu falar do documentário O dilema das redes? Disponível na Netflix, ele explica bem como as plataformas estão manipulando o comportamento humano e as consequências disso. Vale assistir!

2. Um vício que escolhe cor, renda e até orientação sexual
–Unsplash/Reprodução
Lembra-se do dado do Pisa de que 45% dos estudantes brasileiros distraem-se com os celulares nas aulas de matemática? Com essa porcentagem, o Brasil fica acima da média dos países da OCDE (nações mais ricas), em que 30,5% deram essa resposta. No Japão, “apenas” 21% dos estudantes relataram essa distração. Não é só a partir do Pisa que podemos fazer essa correlação entre países mais ou menos desenvolvidos, e a dificuldade em lidar com o celular.

Em seu livro “Geração Ansiosa”, Jonathan Haidt chama a atenção para estudos neste sentido. “Crianças de famílias de baixa renda, negras e latinas têm mais tempo de tela e menos supervisão em relação às crianças de famílias ricas e brancas”, relata. Outras pesquisas sugerem que jovens LGBTQIAP+ também passam mais tempo nos celulares. “Isso sugere que os smartphones estão exacerbando a desigualdade na educação, em termos tanto de classe social quanto de raça”.

Ou seja, a desigualdade ultrapassa a comparação entre uma nação e outra, e pode se reproduzir dentro de um mesmo país. Não é à toa que, no Brasil, muitas escolas da rede privada saíram na dianteira e proibiram os celulares antes mesmo da lei federal.

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3. Além do bê-a-bá
–Marcelo Camargo/Agência Brasil
Em meio à onda de restrição dos celulares, uma pesquisa publicada no prestigiado periódico The Lancet pareceu abalar as certezas. Conduzido por pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, o estudo comparou 30 escolas britânicas e constatou que não havia melhoria em indicadores como foco nas aulas, notas maiores ou volume de exercícios físicos naquelas que restringiam o uso do aparelho.

No entanto, a conclusão dos pesquisadores não foi de que a restrição dos celulares não funciona, mas sim de que é preciso avançar. “Descobrimos que essas proibições, de forma isolada, não são suficientes para lidar com os impactos negativos”, afirmou a líder do estudo à BBC. O próximo passo, indica, é diminuir o tempo de uso do celular de forma mais ampla – o que envolve também um esforço para além das salas de aula, em conjunto com as famílias.

Além disso, é importante pontuar as questões que não foram levadas em conta no estudo, como a melhoria nas interações sociais entre os alunos, a volta das brincadeiras no intervalo e a diminuição do bullying – pontos que foram destacados por professores ouvidos pelo GUIA DO ESTUDANTE.

Deixar estes aspectos de fora da conversa é reproduzir uma visão limitada do papel da escola. “A escola é a grande introdução da criança numa sociedade ou numa comunidade mais ampla do que só a sua família. E esse aprendizado é tão importante quanto o aprender matemática, português ou outras disciplinas”, afirma Claudia Costin.

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4. O impasse da educação midiática – e da falta de recursos
–Pixabay/Lucas Silva/Guia Do Estudante/Reprodução
Apesar dos impasses, banir a tecnologia das escolas não está em debate. Por isso mesmo a especialista em educação Claudia Costin, ex-diretora de Educação do Banco Mundial, reforça que não se trata de uma proibição, mas de uma restrição do uso dos celulares. Costin relembra que atuou ativamente no Instituto Palavra Aberta para a inclusão da Educação Midiática na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e que é essencial desenvolver a competência em sala de aula.

No final de março, o Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou também uma resolução que orienta a respeito da educação digital e midiática no contexto da nova lei.

“Ensinar os jovens a navegar com segurança nas redes sociais, a evitar o cyberbullying, a saber fazer pesquisa por meio digital, todas essas são questões importantes”, afirma. Mas discorda de outros especialistas que enxergam o celular dos próprios alunos como meio prioritário para colocar a educação midiática e o letramento digital em prática.

“O celular pode servir como um plano B, mas é importante lembrar que muitas famílias têm um ou dois celulares, mas que ficam na mão de quem trabalha. Então muitas vezes as crianças não têm celular à disposição para usar essa ferramenta”, pondera. “Daí a importância das escolas adquirirem equipamentos para poderem desenvolver competências digitais”.

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Uma professora da rede pública de ensino de Recife (PE) ouvida pelo GUIA concorda, e completa que muitos alunos já dominam o uso dos celulares e, na verdade, tem dificuldades com outros equipamentos como os computadores. De acordo com o levantamento “Panorama da qualidade da Internet nas escolas públicas brasileiras”, realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologia de Redes e Operações (Ceptro.br), apenas 29% das escolas públicas brasileiras possui algum tipo de equipamento tecnológico para os alunos acessarem a internet.

Nas escolas privadas, a realidade é outra. Professores consultados pela reportagem afirmam que a restrição dos celulares veio acompanhada do investimento em outros equipamentos, como tablets individuais para cada aluno.

Isso sem considerar a logística que envolve o veto ao celular em si. Enquanto colégios particulares instalaram armários com chaves para quem alunos consigam guardar os aparelhos com segurança, em muitas escolas públicas os professores começaram o ano letivo sem um direcionamento – e sem infraestrutura. “Na rede pública esse recurso não chega, então o controle se torna mais difícil porque os alunos que levam o celular para a escola se tornam muito resistentes a entregar”, afirmou uma professora que leciona para estudantes do 6º ao 9º ano.

O desafio só não é maior do que convencer toda uma sociedade tão conectada dos benefícios em olhar para fora das telas. “O Jonathan Hyde, no livro Geração Ansiosa, fala muito do papel dos pais, especialmente pais de classe média, que estão obcecados pela segurança das crianças nas ruas e esquecem que a criança pode estar muito insegura em casa, né? Ao passar a noite inteira em redes sociais, numa idade que elas ainda não deveriam estar ali”, conclui Claudia Costin.

Impossível não se lembrar das cenas finais da série Adolescência, que sensibilizou o mundo todo no último mês. Deveríamos todos fazer mais?

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